Lemúria
A Lemúria é um continente hipotético que teria existido no oceano Índico, proposto no século XIX pelo zoólogo britânico Philip Sclater para explicar a distribuição geográfica dos lémures. Recuperado pela teosofia, o nome tornou-se no esoterismo uma civilização perdida comparável à Atlântida.
Origem e etimologia
Em 1864, o zoólogo Philip Lutley Sclater (1829-1913) publicou no The Quarterly Journal of Science um artigo no qual manifestava estranheza por encontrar lémures em Madagáscar, na Índia, em Ceilão e na Península Malaia. Para explicar essa distribuição, imaginou um continente submerso a ligar essas regiões e batizou-o de Lemuria, em homenagem aos lémures. A hipótese parecia razoável numa época em que a deriva dos continentes ainda não fora formulada (Alfred Wegener publicaria a sua teoria em 1912). O biólogo alemão Ernst Haeckel retomou a ideia em Natürliche Schöpfungsgeschichte (1868), sugerindo mesmo que a Lemúria poderia ter sido o berço da humanidade.
Evolução e tradição
A viragem esotérica vem de Helena Blavatsky. Em A Doutrina Secreta (1888), integra a Lemúria no ciclo das raças-raiz teosóficas: terceira raça, anterior à Atlântida, povoada por gigantes de quatro braços, polissexuais e reptilianos. William Scott-Elliot detalha esta visão em The Story of Lemuria (1904). Rudolf Steiner retoma o mito na sua antroposofia. Nos Estados Unidos, a lenda desloca-se: a partir dos anos 1930, o movimento I AM e o autor Frederick Spencer Oliver (A Dweller on Two Planets, 1894) localizam os sobreviventes lemurianos sob o monte Shasta, na Califórnia. James Churchward (Mu, 1926) confunde Lemúria e o continente pacífico de Mu.
Utilização prática
No New Age contemporâneo, a Lemúria é associada a uma consciência coletiva harmoniosa, feminina, intuitiva e fusional, oposta à Atlântida, percecionada como mais tecnológica e masculina. Os cristais lemurianos (quartzo com estrias horizontais) são comercializados desde os anos 1990 e apresentados como programados pelos antigos Lemurianos. No Tarotoui não dedicamos uma tiragem a este tema, mas a dimensão arquetípica de uma humanidade fusional, arcaica, anterior à separação, pode ressoar com cartas do tarot como A Imperatriz ou A Lua numa leitura espiritual.
Para ir mais longe
No plano científico, a hipótese de Sclater está definitivamente posta de lado desde a consolidação da tectónica de placas nos anos 1960. A presença de lémures em Madagáscar explica-se pela separação continental: Madagáscar e a Índia formavam, com África, o supercontinente Gondwana, fragmentado há 150 milhões de anos. Nunca foi encontrado qualquer vestígio geológico ou arqueológico da Lemúria. O mito mantém-se, contudo, poderoso: oferece uma narrativa coletiva de origem espiritual, devendo ser lido como tal.