Bibliomancia
A bibliomancia é uma forma de divinação que consiste em abrir um livro ao acaso e ler a primeira passagem encontrada como resposta a uma questão colocada. O texto escolhido é, em geral, uma obra sagrada, mas a prática estende-se a qualquer obra considerada significativa.
Origem e etimologia
O termo bibliomancia vem do grego biblion (livro) e manteia (divinação). A prática remonta à Antiguidade greco-romana, em que assumia a forma de sortes — sorteios. As sortes virgilianae, em voga em Roma já no século I, consistiam em abrir a Eneida de Virgílio em busca de um presságio. Segundo a História Augusta, o imperador Adriano terá recorrido a elas para antecipar o seu futuro político. Com a cristianização, a prática transferiu-se para a Bíblia e passou a designar-se sortes biblicae ou sortes sanctorum. O próprio Santo Agostinho evoca nas Confissões (livro VIII) a sua conversão desencadeada pela abertura aleatória de uma epístola de Paulo.
Evolução e tradição
Na Idade Média, a bibliomancia era muito popular em toda a Europa, apesar das condenações conciliares (concílio de Vannes em 465, capitulares carolíngios). O rito do sortilegium precedia por vezes a eleição de um bispo. No islão, a prática chamada istikhâra ou fâl-al-Qur'ân consiste em abrir o Alcorão após uma oração de pedido. A poesia de Hafez é também utilizada no Irão como corpus de bibliomancia (fâl-e Hafez). Na China, o Yi Jing assenta num princípio análogo, ainda que codificado pelo lançamento de varetas de mil-folhas ou de moedas. No século XX, Carl Gustav Jung teorizou em Sincronicidade (1952) este tipo de coincidência significativa.
Utilização prática
O procedimento é simples. Formule claramente uma questão, pegue num livro a que reconheça alguma autoridade — Bíblia, Alcorão, Tao Te King, recolha de poemas — feche os olhos e abra-o. Aponte com o dedo uma passagem sem olhar. O texto assim designado é lido como resposta à sua interrogação. No Tarotoui, pode aplicar este princípio a uma recolha de símbolos do tarot ou a um manual de referência: a seleção aleatória funciona muitas vezes como um eficaz desencadeador de introspeção, por projeção.
Para ir mais longe
A psicologia cognitiva explica a pertinência subjetiva dos resultados pelo efeito Barnum e pela cherry-picking interpretation: um texto suficientemente rico oferece sempre uma leitura que ressoa. Não é demonstrável qualquer validade divinatória estrita. Isso não invalida o interesse hermenêutico do exercício, longamente estudado por Wolfgang Iser e pela teoria da receção: o sentido emerge do encontro entre texto e leitor. A bibliomancia continua a ser uma ferramenta legítima de introspeção, desde que entendida como espelho e não como oráculo.